Dente de leite vira ‘tesouro’ para cura de doenças

Dente de leite vira ‘tesouro’ para cura de doenças

14-10-2016

Quem poderia imaginar décadas atrás que o dente de leite, famoso por ser moeda de troca com a fada, seria hoje fonte de células-tronco que têm o potencial de serem transformadas, por exemplo, em neurônios, células hepáticas e cardíacas.

“Os estudos relacionados às células-tronco extraídas da polpa do dente de leite estão bastante avançados. Estão sendo alvos de pesquisa como elemento para tratamento efetivo de câncer, doenças cardíacas, Alzheimer, diabetes e má-formação. Servem para entender como essas doenças funcionam, para desenvolver modelos diferentes de tratamento e criar drogas mais efetivas”, afirma José Ricardo Muniz Ferreira, presidente da R-Crio, Centro de Tecnologia Celular, especializado em armazenar as células-tronco dos dentes de leite.

Diferentemente das células coletadas no cordão umbilical, as que estão presentes na arcada dentária são classificadas como mesenquimais e são mais versáteis. “São muito jovens e com grande plasticidade e versatilidade. Podem ser utilizadas em mais tratamentos do que aquelas encontradas no sangue”, diz Ferreira.

Para extrair o “tesouro”, é necessário acompanhamento com o dentista. Somente o profissional poderá avaliar quando deverá ocorrer a extração para coletar o material sem perda. “O dente tem que estar próximo de ficar mole e é preciso ver como está a absorção da raiz. Fazendo toda essa avaliação, um dentinho só é suficiente”, explica Fabio Bibancos, cirurgião-dentista especializado em Odontopediatra, Ortodontia e Mestre em Saúde Coletiva.

Para realizar o procedimento, os dentistas precisam ser credenciados em algum Centro de Tecnologia Celular, além de seguir os protocolos estabelecidos pela R-Crio e passar por treinamento. No Brasil, há cerca de 1.000 profissionais aptos para o processo. No Grande ABC, há somente um em São Bernardo e mais cinco em fase de treinamento na cidade.

“Existe um passo a passo que deve ser seguido, e o tempo entre a extração do dente e a chegada dele no laboratório se dá em 48h”, diz o presidente da R-Crio, que estuda células-tronco há mais de 10 anos. “Geralmente, chegam entre 7 a 15 células do dente, que preservamos e multiplicamos em até 7 milhões. Elas podem ser armazenadas por tempo indeterminados até precisarem ou não ser utilizadas.”

O administrador William Oliveira, de Campinas, apostou no projeto e guardou as células-tronco do dente do filho Guilherme, de 12 anos. “Conhecia um pouco sobre esses estudos, me informei mais e resolvemos fazer. Tenho uma filha mais nova, de 9 anos, que guardamos também o cordão umbilical e pretendemos armazenar o dente de leite dela mais para frente. Tenho certeza que em um prazo não tão longo, teremos uma aplicação prática dessas células. Espero que meus filhos não precisem usar, mas dá uma tranquilidade a mais.”

Quem também fez o procedimento visando o futuro de Bruno, hoje com 8 anos, foi Antônio Rogério Tabalipa, de Jundiaí. O militar aposentado e professor universitário adotou o filho, que possui má formação congênita, com pouco mais de dois anos de idade. “Como eu e minha mulher não somos doadores em nada, vi uma chance de ele poder ser doador dele mesmo caso precise. Tenho três filhos do primeiro casamento, o mais novo com 30 anos, e se existisse essa técnica no tempo deles, teria feito também.”

Há dois tipos de planos oferecidos pela R-Crio. O Standard inclui extração do dente, transporte, expansão das células, testes e armazenamento por R$ 2.980 no primeiro ano, mais mensalidade anual de R$ 735 a partir do segundo ano. O pacote Premium oferece, além dos serviços citados, uma análise do perfil genético. O valor é de R$ 6.980, mais R$ 735 por ano.

“É importante que as famílias saibam que essa geração entre 6 e 12 anos pode se beneficiar e muito com um dente que vai ser perdido. Há um custo sim, pois não há iniciativa pública para este tipo de armazenamento, mas acredito que com planejamento familiar é uma opção que deve ser analisada”, conta José Ricardo.

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